Tema da semana: 'Sinais'

segunda-feira, agosto 29, 2005

Diretas, já; mas a mudança...

Podia ser Roger Daltrey, líder do The Who, cantando a inesquecível Without Your Love, a música que me encantou no início dos anos 80, junto com a descoberta do amor juvenil; ou a voz de Waldyr Amaral, radialista da Rádio Globo, narrando o golaço de Nunes, com direito a drible desmoralizante no beque Silvestre, do Atlético Mineiro, num Maracanã lotado, na decisão do Brasileirão de 1980, primeira conquista nacional do meu Flamengo; e até as noites perdidas ouvindo as traduções melosas do Good Times, na 98 FM. Mas o momento mais marcante da minha relação com o rádio remonta a 25 de abril de 1984, quando a Câmara dos Deputados rejeitou a emenda constitucional do deputado federal Dante de Oliveira (PMDB), que previa eleições diretas para a Presidência da República. Eu tinha 17 anos. Estava em Vitória. Naquele dia, entendi como em política tão pouco é muito. Ouvi na Rádio Gazeta AM o resultado da sessão em Brasília: faltaram apenas 22 votos para que o quórum necessário (320) fosse alcançado. E o meu sonho — e de milhões de brasileiros — de votar para presidente no ano seguinte foi para o espaço. Tudo bem que a ditadura militar já vivia o epílogo do seu esgotamento e o conservador Tancredo Neves acabou eleito pelo Colégio Eleitoral, mas não era o que eu sonhava. Eu mal sabia que teria de esperar mais quatro anos, pois a eleição direta só aconteceria em 1989.

Hoje, em meio à frustração do (des) governo Lula — e pensar que ele foi um dos personagens importantes daquele movimento —, pode parecer que foi à toa aquela expectativa do dia 25 de abril, há 21 anos. Muito pelo contrário. Sou um filhote da ditadura — quando nasci a “Redentora” já somava quase três anos de existência — e vivi na pele o que é respirar em tempos de censura. Entrei na adolescência apaixonado pelo Flamengo e profundamente curioso quanto à política nacional. Eram tempos de Arena e MDB. A coisa era tão braba que Ulisses Guimarães (PMDB) era considerado subversivo. Uma vez, na aula de redação, escrevi um texto em que dizia que era comunista. O professor me disse ao pé do ouvido que era melhor eu escrever sobre a minha mais recente viagem de fim de semana.

Por essas e outras, a campanha das “Diretas Já” se transformou numa questão de honra para todos que achavam ser possível mudar o país com o voto para presidente. Ninguém suportava mais os generais escolhidos pelo Colégio Eleitoral, uma farsa cujo único objetivo era legitimar as decisões dos ditadores, instalados no poder desde 31 de março de 1964. Participei de passeada no Centro de Vitória, fiz panfletagem na Praça Costa Pereira, a mais tradicional da capital capixaba, e acompanhei com ouvidos atentos e coração na mão a votação da emenda Dante de Oliveira — pode parecer curioso para as gerações mais recentes, mas naquele tempo as TVs não noticiaram ao vivo nem os grandes comícios em São Paulo e no Rio. E pensar que hoje até depoimento de deputado calhorda ganha horas e horas de transmissão via satélite.

Quando a sessão terminou, com 298 votos a favor contra apenas 65, mas sem atingir o quórum necessário, desliguei o aparelho Motoradio vermelho que ficava sobre o armarinho ao lado da minha cama, enxuguei as lágrimas e falei baixinho para mim mesmo que o dia da mudança do Brasil ia chegar.

Vinte e um anos depois, não chegou ainda. Mas continuo esperando. Fazendo a minha parte. E com o radinho colado no ouvido. Esquerdo.

Por Helton Fraga