Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, julho 14, 2005

Tá ruim, vira mais

Máquina de fazer doido, emburrecedor de toda uma coletividade. O que não faltam são frases prontas criadas com o objetivo claro de criticar o meio de comunicação mais poderoso das últimas décadas. Todas carregadas de razão. Mas, críticas justas à parte, é impossível pensar o mundo após a metade do século XX sem se levar em conta a força da televisão.
Mais impossível ainda é dar uma passadinha na nossa memória afetiva e não esbarrar nela. Volto bastante no tempo e encontro Paulo José e Flavio Migliaccio em Shazan e Xerife, meus primeiros heróis na TV. Recordo, com certa dificuldade, dos bonecos da Vila Sésamo. E me dou conta que boa parte da rua não deve fazer idéia da origem do apelido do vizinho quarentão: Garibaldo.
Shazan e Xerife na memória trazem de volta o gosto de leite quente antes de dormir, de cheiro de curral nas férias na bucólica Sacra Família. Nas novelas, Glória Menezes nem sonhava em Alzeimer e costumava tomar conta da telinha ao lado de Tarcísio Meira. Novelas, no entanto, não eram o meu forte. Mamãe nos proibia de assistir à das oito. Logo, eu não fui testemunha ocular da célebre cena em que Sônia Braga, ícone da beleza brasileira dos anos 70, subia no telhado para buscar uma pipa. Se minha memória não me trai agora, Gabriela era novela das dez e a esta altura eu já deveria estar no quinto sono.
Filmes, no entanto, costumavam mobilizar a casa. Papai é quem escolhia os títulos. E ele adorava filmes de guerra – gostava de se lembrar da vitória dos aliados no ano em que nascera – e cinema catástrofe, principalmente os baseados em histórias reais. Impossível não lembrar dos três irmãos enfrentando o sono para poder chegar ao fim de vários filmes. Lembro bem de O Trem Desgovernado e O Destino do Poseidon. Ninguém dormia, afinal os debates a respeito da fita ocupariam as aulas da manhã seguinte. A impressão é que todos assistíamos a mesma coisa – e assistíamos mesmo. Não havia DVDs, tvs a cabo ou Internet para disputar a atenção da nossa geração.
As televisões de então tinham detalhes inimagináveis para os dias de hoje. Os gritos de “vira, vira” ou “tá ruim, tá ruim” enquanto se rodava a antena, trepado na laje eram corriqueiros. A tv em cores só se popularizou em meados dos anos 80. Antes, um apetrecho bem esquisito buscava minimizar a falta de cor: uma telinha azul que era enganchada ao aparelho. Eu achava horrível e lá em casa papai nunca apelou para aquilo.
A TV naquele tempo não carregava a onipresença dos dias atuais. TV no trabalho, em bares ou lanchonetes era sinônimo de Copa do Mundo. Hoje, confesso que me aborrece tomar um café e notar que o bate papo da manhã foi interrompido porque alguém quer prestar atenção na Ana Maria Braga. Lembro que era um espectador assíduo. Divertia-me com O Gordo e o Magro, com as trapalhadas de Maxwell Smart, o Agente 86, as graças de Bill Cosby, as caras e bocas de Ronald Golias, o eterno Bronco. Era louco para ter uma prima nos moldes da Narizinho. Como lamentei por não ser neto de dona Benta, por mais que adorasse o ovo mexido de vó Áurea.
Futebol na TV era coisa rara. E quase sempre a senha para que pudesse ocupar um lugar no sofá ao lado do pai, “tarde da noite”, para desespero de mamãe. Lembro de muita coisa que ficou no passado. Da TV Tupi do Capitão Aza, que me lembrava de escovar os dentes. Do Speed Racer, que hoje dá as caras na TV paga. Do M da Manchete passeando pela zona sul do Rio, antes de descansar no topo da sede da emissora, na Praia do Russel. Da malfadada censura, abrindo cada programa e apontando quem poderia ou não assistir “à próxima atração”. Do seletor de canais, da tela correndo nas horas mais impróprias, quando tínhamos de tentar ajustar o corre-corre no botão vertical, que invariavelmente ficava nas costas do aparelho. Lembro da TV à válvula – que virava e mexia queimava e acabava com a festa.
Volto para a casa pensando em televisão, quando o celular me traz de volta a 2005. A mensagem diz: “Ana Luíza está te esperando para assistir A Grande Família. Você prometeu. Não demora”. Sorrio. E penso: “Nem tudo mudou, ainda bem”.
Por João Henrique