Tema da semana: 'Sinais'

domingo, julho 10, 2005

Sobre os lábios vermelhos e os olhos oblíquos de Andressa*

Era um entardecer azulado quando acordei.
Nem laranja, nem vermelho.
Uma figura estranha, distante, no espelho.

Eu me lembro como se fosse hoje. A viagem tinha sido longa e cansativa e ela havia flertado comigo o tempo todo. Eu não tinha percebido.

Era mais um dia difícil,
um começo-resto de dia impossível.
Um entardecer azulado e gelado.
Não era fim, não era início.

Eu sou - era - lento mesmo pra perceber essas coisas. Acho que nunca é comigo. Algumas vezes, é. Dessa vez, era. Chegamos no início da noite. Deixamos o ônibus, eu, ela, todo mundo, e fomos pro alojamento.

Era uma tarde, um dia azul,
que não era aqui.
Não era lugar algum.
Não era Norte, não era Sul.

Eu não sabia, ela não se esforçou, as amigas não ajudaram. Mas não gostei quando ela beijou o colega dos Classificados.

Era uma tarde gelada
em que não existia presente.
Porque só havia lembranças e sensações.
Havia dor na gente.

Eu vi que eles dançaram, dançaram a noite inteira. (Enquanto o alojamento era assaltado). Eu nunca aprendi a dançar, eis um dos meus erros. Ele, o colega dos Classificados, estava bêbado. Ela estava bêbada. Eu estava bêbado. Eis um dos meus acertos.

Era uma tarde de tempo parado,
dúvida suspensa no ar.
Aquele futuro, de que falaram, onde estava?
Em algum lugar, em algum lugar.

Eu estava bêbado, mas não fui dormir como o colega dos Classificados. Ela estava bêbada, mas não foi dormir com o colega dos classificados.

Era uma tarde fria e azul. Medo? Algum.
Paisagem irreconhecível. Nova Iorque? Paris? Não.
Nem a janela do quarto. Não era lugar nenhum.

Eu nem pensei, ela também. O beijo, o único, foi ali mesmo. Sob a lua do Atlântico Sul.

Como posso dizer que te amo, se você ainda não (des)apareceu?

Por Paulo Galvez

*Publicado originalmente no Terceiro Caderno