Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, julho 28, 2005

Saudade, seu nome é Zé Carlos

Considero-me um saudosista. Aos 32 anos, tenho saudades de pessoas, lugares, situações. Lembro-me agora, pode parecer estranho, mas tenho saudades de um doce de caju cristalizado que há séculos não vejo nos supermercados. Saudades de Romerito no meio-campo do meu Tricolor. Saudades da infância, com os três filhos de “seo” Zé Carlos e dona Maria morando no mesmo quarto, e disputando o poder de decidir onde a velha Telefunken preto e branca ficaria sintonizada. Saudade do colo da Dinda, minha tia-avó mais avó do planeta, do “vô” Waldemar nos dando bala em seu botequim quando íamos buscar o pão do café da manhã, sempre orientando a chupá-la antes de chegar em casa, arrumando um jeito da gente fugir do rigor de mamãe.

Saudades são várias. A cada ano a lista aumenta. Mas um nome personifica pra mim este sentimento: José Carlos Barbosa. É impossível não associar este sentimento a este nome, desde que papai, prematuramente, aos 52 anos, nos deixou, em janeiro de 1997. O velho não deixou dinheiro, casa ou qualquer bem material. Mas nos passou caráter, nos ensinou que homem chora sim, que é preciso ser solidário, se preocupar com o próximo. Nos ensinou – e todo mundo aprendeu direitinho – a torcer pelo Fluminense. Como filho mais velho, eu herdei ainda a propensão à pressão alta e uma bronquite asmática que ele mesmo havia herdado do velho Waldemar.

Vivemos grandes momentos juntos. Até minha opção profissional tem a ver com ele. Fui apresentado aos jornais ainda garoto, lendo a edição de O Globo que ele trazia diariamente para casa. Nelson Rodrigues na página de esportes. Bons tempos. Também aprendi a ouvir rádio com ele. E não vivo sem o rádio AM até hoje. Impossível não lembrar os longos papos com o pai. Ele era de conversar muito, talvez venha daí o meu gosto por um causo, uma conversa – fiada, que seja.

Papai conversava sobre tudo. Já escrevi sobre a Vassouras dos anos 60, no extinto Jornal de Vassouras, baseado nas memórias dos causos dele. Fui obrigado a confidenciar a um leitor que o texto era meu e que o tal Joaquim Teixeira Leite era só uma personagem. O clube citado como time do coração do Joaquim já prepara um título de sócio benemérito para ele. Tive de desapontar o leitor, fazer o quê?

Lembro dos carnavais da infância, com a sala cheia de colchonetes, a família toda de olho na Sapucaí. Sanduíches de queijo e presunto, guaraná e o pai animando a turma. Quem estivesse acordado ia dando as notas na tabela que ficava em cima da mesa. Na nossa apuração paralela, sempre dava Beija-Flor. Papai trabalhara na Baixada e sempre torcia pela “representante do antigo estado do Rio” – a fusão em 1976 uniu a cidade do Rio de Janeiro, ex-Distrito Federal e então Guanabara, ao estado do Rio de Janeiro, cuja capital era Niterói. Mais tarde, apresentado a Cartola, Carlos Cachaça e Nélson Cavaquinho, me tornaria um mangueirense.

Estivemos juntos em outros momentos importantes. Como a minha primeira ida ao Maracanã. Perdemos a preliminar e ouvi uma de suas máximas preferidas no futebol. “Quem ganha a preliminar, perde o jogo principal”. O Flu tratou de desrespeitar esta lógica, mas tudo bem. Para presidente, votamos juntos pela primeira vez. Acompanharíamos juntos mais duas campanhas presidenciais. Neste sentido, fui eu que influenciei o velho. Em 86, pedi voto para o Gabeira (então candidato do PT ao governo do Rio). Ele disse que votaria. Anos mais tarde, papai já no céu, mamãe me confidenciou: “Votamos no Darcy (Darcy Ribeiro, candidato do PDT de Brizola)”. Mais tarde, no entanto, ele se tornaria petista. De fazer campanha, se filiar e ir ao Rio em grandes comícios.

A saudade que sinto do velho hoje é uma saudade saudável, diria. Fico com pena de Ana Luíza não poder curtir o avô carinhoso que ela teria, mas a vida é assim mesmo. Ficou a lembrança do pai carinhoso, da conversa agradável, do gosto por amizades. Gostaria de ser mais religioso e acreditar que, um dia, estaríamos juntos de novo. Mas sou meio cético. Ameniza o sofrimento saber que tivemos uma relação muito intensa. Tão intensa que vou às lágrimas cada vez que ouço Fábio Júnior cantando Pai. Por mais que ache que ele combina mais com Naquela Mesa, a composição de Sérgio Bittencourt que virou sucesso na voz de Nélson Gonçalves.

Por João Henrique