Tema da semana: 'Sinais'

sábado, julho 30, 2005

Saudade em verde e amarelo

Há 10 anos atrás, senti saudade pela primeira vez. Conversávamos sobre o assunto, eu e uma amiga croata, toda vez que nos encontrávamos, durante os quatro anos em que vivi nos
Estados Unidos. Enquanto a neve caia lá fora durante alguns meses dos nove que faziam somente de frio, falávamos sobre saudade com os olhos lacrimejantes. Ivana é alta e branca, adivinhem só, como a neve. Quando a vi pela primeira vez, usava coturnos e parecia que tinha saído do exército. Seus cabelos pretos e longos reforçavam a seriedade marcante. Ela não sorria. Ali estava ela, saída de uma guerra brutal na região dos Bálcãs, onde nascera. Refugiou-se com a família na Alemanha e agora tinham uma nova oportunidade na América. A sua história era apenas uma das muitas dos imigrantes que viajam para os Estados Unidos em busca de um futuro muitas vezes incerto.

West Haven era uma cidade pequena e insossa. Era fria e tipicamente americana. Comprar era lazer para seus moradores. Durante os poucos meses de verão, caminhávamos na orla da praia sem graça que banha a cidade ou nos sentávamos no pátio do meu antigo prédio e divagávamos sobre o que estávamos perdendo em nossos países. Confesso que perdemos muito tempo discutindo e não vivendo, mas nos desesperávamos em ver a adolescência passar tão rápido, anos de curtição, de novas amizades e de experiências únicas. Às vezes se juntavam a nós o que eu chamava de “ONU”, gente de todo o canto do mundo, amigos de países como Colômbia, Polônia, Haiti e Venezuela, que também sentiam saudades de sua terra e compartilhavam suas vidas, angústias, medos e sonhos.

Lá fora, o Hino Nacional emociona o mais duro dos corações. Apesar da desunião dos brasileiros que lá viviam e que, como nós, foram em busca de uma oportunidade de vida, o sentimento de patriotismo nos unia. Esses mesmos brasileiros que lavavam pratos em restaurantes, limpavam banheiros, esfregavam o chão, tiravam a poeira, varriam a sujeira, pintavam paredes, cortavam a grama e cuidavam de crianças mimadas e bem de vida tinham algo em comum: a saudade do seu país. Falavam emocionados sobre o carnaval, o futebol, a cerveja gelada na esquina, o calor humano. Muitos não viam suas famílias há anos. O medo de sair do país em razão de vistos ou passaportes vencidos, impede qualquer imigrante de realizar o sonho de rever parentes e amigos que deixaram para trás.

Em casa, preenchíamos o vazio que a saudade provoca com as coisas mais banais do cotidiano. Guaraná era a glória! Goiabada com queijo, divina! Camisa da seleção brasileira em tempos de Copa do Mundo, indispensável! Bombom Serenata de Amor, que maravilha! MPB e as lembranças rolavam! A leitura também era um modo de compensar a falta do Brasil. De vez em quando uma revista, noutras um jornal ou um livro, todos em português! Etâ língua bonita! Também passava as madrugadas conectada na Internet reencontrando amigos de outras épocas ou fazendo amizade com ‘brazucas’ que, como eu, sentiam falta da terrinha.

Um dia resolvi partir. Cansei do frio, da neve, do fast food, do “where´s your green card?”.
Quando o avião pisou em solo brasileiro, sorri. A saudade tinha ficado para trás. Ou não. A partir daquele momento, sentiria saudades em outras paradas. Não adianta correr. A saudade faz parte.

Por Tatiana Campelo