Tema da semana: 'Sinais'

quinta-feira, julho 21, 2005

Ilha deserta? Deixem-me no continente!

Ilha deserta. Para falar a verdade, nunca tive muita vontade de estar em uma. É claro que várias vezes fui instado a responder à indefectível pergunta: “Quem você levaria para uma ilha deserta?” Forço a memória e lembro de algumas respostas clássicas: Luciana Vendramini, Mayara Magri (alguém ainda se lembra dela?), entre outras. Se fosse adolescente nos dias de hoje, dificilmente deixaria de responder Juliana Paes. Nos anos 90, Valéria Valenssa era “pule de dez”. Vera Fischer, em qualquer das décadas, era candidatíssima.

Pensando bem, fora as respostas vazias dos tempos de garoto, nunca partiria para uma ilha deserta. Os acampamentos idealizados na adolescência, mesmo no continente, nunca viraram fato. Na hora de pensar seriamente notava que meu furor aventureiro esbarraria na primeira vontade de ir ao banheiro. Declinava de todos os convites. Acho que este comodismo eu herdei de meu pai. Sempre que podia, ele me contava a sua primeira ida a um restaurante. Era também a primeira vez que ia ao Rio de Janeiro com vovô. Depois do almoço em um restaurante simples do centro da cidade, oferecem laranja ao grupo de Barão de Vassouras. Papai diz que não quer. Para depois pensar: “Se soubesse que vinha descascada, teria aceitado”.

É claro que o exemplo acima eleva à enésima potência a lei do mínimo esforço que muitas vezes adotamos. Mas é certo também que não abro mão dos parcos confortos que minhas condições de integrante da baixa classe média (bota baixa nisso) me garantem. Banheiro limpo, por exemplo. De preferência com direito a jornal do dia e um radinho de pilha. Parece estranho, mas para o maluco aqui isso é fundamental. Portanto, se a viagem à tal ilha deserta fosse imperativa, eu tentaria garantir um sanitário simples, mas digno. Como não dá para imaginar uma banca em uma ilha deserta, o meu radinho de pilha também seguiria. Principalmente se um jogo do Tricolor ainda me alcançar longe do continente.

Moro a cem quilômetros do mar. E gosto muito da praia. Mas não posso afirmar que sou um freqüentador assíduo. No verão passado, por exemplo, não fui nenhuma vez. No anterior, uma vez só, em uma excursão em família. Nado pouco. Ou nada. Na praia, meu habitat natural é o quiosque. De preferência na sombra, bebendo Brahma e beliscando peixe frito. De vez em quando um beijo na direção da patroa. Quando aparece alguém com um batuque, melhor ainda. Mas só se for samba de verdade. Se alguém ataca com uma destas músicas que chamam de pagode e ocupam o topo das paradas, troco de quiosque.

Nada disso terei em minha passagem pela ilha. Sendo ela deserta, nada de quiosques, sardinha frita ou pagode. Fazer o quê? Levar musas para a minha aventura não me parece grande idéia. Mesmo mais novo, nunca impressionei pelos dotes físicos. Não que seja dono de grande inteligência, mas um bom bate-papo sempre foi um melhor aliado que uma sunga de praia. E imagine o bobo aqui tentando subir em um coqueiro para fazer agrado à Vera Fisher, por exemplo. Canso só de pensar. E a armação da cabana? Impossível. Conheço-me bem. Ou a musa contribui decisivamente para a montagem da barraca ou passaremos a noite ao relento.
Acordar e não poder escovar os dentes também é pavoroso. Eu levaria pasta e escova para uma ilha deserta. Mas onde encontrar água doce para fazer a escovação? Bom, pensando bem, sejamos definitivos: deixem-me no continente!

Por João Henrique