Tema da semana: 'Sinais'

terça-feira, junho 14, 2005

É Proibido Abduzir

Sul do estado de Minas Gerais, madrugada do dia 14 de junho de 2005, estrada escura. O cavalo anda em ziguezague, respeitando o estado cambaleante de seu dono, que volta do bar do “Seu” Pedro já pensando em como vai conseguir levantar-se para trabalhar na manhã seguinte. José é subitamente arrancado de seus pensamentos por uma voz trêmula e baixa, vinda de uma moita próxima: “é proibido proibir... é proibido proibir...” A frase repetida como uma ladainha. Estivesse ele sóbrio com certeza já estaria longe, porque só pode ser assombração. Mas como se trata de um bêbado valente e curioso, ele vai até a moita e, surpreso, reconhece aquele rosto que está na capa de alguns discos que viu na casa daquele primo que mora em Varginha. Ele pensa estar sonhando, mas está frente a frente com um Caetano Veloso estranhamente mais jovem.

Manhã do mesmo dia. “Então o senhor diz ser Caetano Veloso e ter sido abduzido no início dos anos 70?” O delegado Teixeira não podia acreditar que estava travando aquele diálogo. Como já era fim de turno, em vários momentos achava que estava só dormindo em sua mesa. “Quando exatamente foi isso?” O rapaz de olhos vidrados começou a falar com aquele sotaque que por incrível que pareça só dava credibilidade à história maluca dele: “Foi assim que voltei do exílio em Londres. Tinha ido visitar mamãe lá em Santo Amaro e estava descansando na varanda, uma noite bonita de céu claro e estrelado, daquelas que só existem lá na Bahia. Foi então que um objeto, assim não identificado, apareceu cheio de luzes brilhantes e lindas em tons de rosa”.

“Só pode ser maluco” pensou Teixeira. “Aquela dança hipnótica das luzes era tão irresistível que saí da varanda e fui para o meio do quintal para ver melhor. Foi aí que aquele facho luminoso enorme e lindo desceu da nave e me abraçou. Flutuei até a nave e fui levado então para o planeta deles”. Já tendo certeza de que estava ficando também maluco, Teixeira retrucou: “E o que fizeram com o senhor? O que aconteceu durante este tempo todo? O senhor sabe que estamos já em 2005?”. O moço, quer dizer, Caetano, continuou: “A passagem dos anos é totalmente diferente quando estamos em outra dimensão. Passei este tempo todo sendo estudado, como um animal em cativeiro. Mas aprendi a língua deles e pude acompanhar bem os fatos, tudo o que se passava aqui na Terra também. O objetivo desta raça do planeta B-12 (Saint-Exupéry também era um deles) é conquistar nosso mundo. O senhor já deve ter ouvido falar que o planalto central brasileiro é dotado de força mística, uma espécie de campo de pouso intergalático, um local apropriado para o contato com outros mundos?”.

Pensando que isto até fazia algum sentido, já que aquele lugar só tinha lunático mesmo, Teixeira respondeu: “Não, não sei nada dessas besteiras”. E Caetano continuou: “Pois é verdade! O Brasil parece ser o lugar que oferece as melhores condições para o início da invasão. Mas eles não querem dominar nosso mundo por meio das armas, não num primeiro momento. O que pude perceber é que, sendo eles uma raça de metamorfos, fazem uso desta habilidade para irem se infiltrando aos poucos em nossa sociedade. Seqüestram pessoas famosas, formadoras de opinião, e colocam cópias em seus lugares. Então vão desestabilizando nossa sociedade aos poucos”.

O delegado Teixeira, segurando o riso, fez a pergunta óbvia: “E quem ficou no seu lugar?” Indignado com o riso de seu interlocutor (o que era mesmo típico de qualquer Caetano), o rapaz respondeu num tom de voz forte e desafiador: “Num primeiro momento, deixaram Arnaud Rodrigues em meu lugar. Ele chegou a fazer shows como parte da dupla “Baiano e os Novos Caetanos”, mas os chefões do planeta B-12 acharam que ter montado este grupo era algo irônico demais e que iria dar bandeira. Trocaram então o Arnaud por uma versão 2.0 de meu clone, essa que está aí até hoje”.

“E o senhor tem alguma prova concreta de que é Caetano?” Foi a pergunta de Teixeira, também desafiador. “Não senhor, só posso provar que este que está aí não é. O senhor acha que o ‘eu verdadeiro’ faria músicas como ‘Leãozinho’? Acha que falaria tantas abobrinhas na imprensa e daria minha benção a coisas como a Axé Music?”

Teixeira, pensativo: “E por que resolveram soltar o senhor?” Caetano: “Não soltaram. Como eu não tinha mais nada a oferecer para eles por lá simplesmente esqueceram de mim, e se preocupam mesmo é com o estudo dos novos abduzidos. Me aproveitei disso e entrei escondido numa das naves que fazem a patrulha aqui pelo sul de Minas, me aproveitei de um descuido deles durante o pouso na madrugada e saí rápido. Cambaleante e ainda tonto, fui encontrado por aquele bêbado”.

“E o senhor sabe se aconteceu o mesmo com outras pessoas? Acabou de falar sobre famosos...” Caetano sorriu triunfante: “Claro que sei. Acha que o verdadeiro Roberto Carlos faria músicas como as dos últimos 25 anos? Ele foi abduzido ainda antes de mim. Mas há um caso mais grave...” Teixeira, curioso: “Qual?” Caetano: “Delegado, o senhor notou alguma diferença entre o Lula e a cúpula do PT dos últimos 20 anos e o Lula e o PT que estão no governo, agora metidos em corrupção?” Teixeira coça a cabeça lentamente... Olha para o chão... Pega uma caneta, um pedaço de papel, e responde: “Caetano Veloso, o senhor pode me dar um autógrafo?”

Por Marcos Donizetti