Tema da semana: 'Sinais'

quarta-feira, junho 01, 2005

O Jogo de futebol da minha vida: 'Por que eu não tomo café-com-leite'

Não era São Januário, tampouco o Maracanã lotado. O grito da torcida mal se ouvia. Às vezes, um pequeno grupo arriscava um coro, umas inocentes palavras de incentivo, mas eram tão desencontradas que logo perdiam a força. Não era uma disputa que despertasse fanatismos e paixões. Era no máximo uma vontade de vencer. Não por amor à camisa e ao time e sim por esse ordinário sentimento humano que é o de não se aceitar como perdedor. Embora, se perdesse a partida, não haveria choro, abatimento que durasse mais que alguns poucos minutos e torcedor querendo rasgar o ingresso. Porque ingresso nesse jogo não tinha, talvez nem torcedor.

Para a surpresa de alguns, a partida da minha vida não foi uma vitória do Vasco da Gama - ainda que este meu time tenha me dado alegrias inesquecíveis. Emoção sem igual no futebol eu senti mesmo numa modesta partida de jogos estudantis. Desses que motivam mais os estudantes por estarem fora das salas de aulas do que propriamente pelo esporte. Como a participação nos jogos valia nota, a maioria acabava comparecendo e participando por pura obrigação.

E esta que hoje é uma fanática vascaína, que discute futebol e que vê até “pelada” em campo de várzea era também uma aluna displicente. Até então, para mim, futebol significava meu pai deitado na sala no domingo à tarde, televisão nova a cada Copa do Mundo e eu de fora das brincadeiras dos meus irmãos. Tinha oito anos e aversão a qualquer esporte coletivo. Sempre fui uma aluna medíocre em educação física. Estabanada e sem nenhuma habilidade, sobrava quando os “atletas” da turma começavam a montar os times. Minha posição sempre foi café-com-leite.

Naquela tarde não seria diferente. Apenas para que o professor pudesse me dar uma nota e para que o esporte cumprisse sua função social de incluir e não fazer sofrer os que não têm intimidade com a bola, seria escalada mais uma vez para ficar no banco de reservas. A última opção. Aliás, uma opção meramente figurativa. Então, eu ficava por ali, entediada, vendo a bola ir de lá pra cá, de pé em pé, esperando a hora de ir para casa.

Em campo, estavam os craques da minha turma – a segunda-série C: Dieguinho, Eni, Paulinho, Flávia e outros que, obviamente, não me recordo mais os nomes. Faltava pouco tempo para o fim e o placar era de um a um. Para mim, cada minuto que se passava era o prolongamento da angústia de representar o papel de uma atleta. A incômoda afirmação de que era apenas uma reserva café-com-leite, jamais uma opção real de substituição. Embora estivesse à beira das quatro linhas, o campo para mim estava tão distante que mesmo andando a vida toda, ainda que fazendo embaixadinhas, nunca chegaria lá.

Tentava dimensionar a distância entre mim e o gramado, quando escutei o professor me chamar. “Entra em campo, vai lá jogar um pouco” - ordenou. Ameacei simular um mal súbito. Cheguei a implorar que não. Primeiro, porque certamente seria vaiada – como fui ao substituir a Flávia, a menina que surpreendentemente jogava mais bola que qualquer garoto. Segundo, porque seria a humilhação, um suicídio social, diante do colégio.

Mas, foi assim, numa tola disputa estudantil, que o futebol se apresentou para mim redentor e transformou-se em fonte inesgotável de emoção que insiste em colocar meu coração à prova. É paixão que me faz rir e chorar diante da mágica de um passe perfeito, de um drible ousado, de uma surpreendente defesa e, claro, de um gol. Seja ele de placa, olímpico, de bicicleta, de calcanhar ou até de mão. Futebol é arte que inebria a alma. É a alegria instantânea. É a beleza da simplicidade. A genialidade de fazer o óbvio. A probabilidade do impossível. É a prova de que milagres existem.

E estava eu lá em campo, perdida, sem ter me aproximado da bola sequer uma vez, correndo para onde ia a maioria, sem a mínima noção do que acontecia, quando de repente a bola veio na minha direção. Sem saber o que fazer com ela, imediatamente quis correr para outro lado e acabei sendo atropelada por um jogador da equipe adversária. Caí na área: Pênalti! Eram os deuses do futebol sendo extremamente generosos comigo. E antes que alguém pudesse pegar na bola, num impulso, eu a peguei: “Eu bato!”, disse com voz tão imponente que, por um momento, acreditei que tivesse me tornado uma predestinada. Não houve quem conseguisse tirá-la de mim.

Os segundos que se seguiram não foram apenas o de um chute. Foi o instante de um arrebatamento. Naquele dia, senti a emoção de um gol e conheci o encantamento do futebol. Dei uma leve corrida desajeitada e, com muita atenção para não errar, deixei meu pé direito tocar a bola sem muita convicção. Fechei os olhos e quis ter tapado os ouvidos – como ainda faço nas grandes decisões. Não deu tempo: logo surgiram alguns gritos de gol.

Sem nenhum tipo de comemoração (nem isso eu sabia fazer), saí de campo chorando. Era a primeira vez que o futebol me levava às lágrimas. Pensaram, entretanto, que eu tivesse me machucado e no dia em que poderia ter me consagrado artilheira nata, conquistei minha vaga cativa de café-com-leite. O futebol brasileiro perdeu um talento da bola e ainda me perguntam por que eu só tomo Nescau.

Por Jussara Soares