Tema da semana: 'Sinais'

Terça-feira, Junho 28, 2005

O Homem do Saco: ontem e hoje

O gosto pelo novo e desconhecido manifestou-se muito cedo em mim. Assistia àqueles programas estilo National Geographic e sonhava explorar o mundo, conhecer lugares e pessoas diferentes, além de todos aqueles animais tão exóticos. Mas era necessário um ponto de partida, e acho que para toda criança com menos de seis anos de idade este ponto de partida era um só: a rua.

Via os meninos mais velhos jogando bola, as garotas lindas que passavam de um lado a outro naquelas tardes quentes (sim, eu era precoce) e sempre que possível queria sentir o gosto de toda aquela liberdade. Queria aquelas moças acariciando meus cabelos e dizendo "que menino tão fofo" e coisas assim.

Não demorou e minha mãe, esperta como sempre foi, percebeu que algo precisava ser feito, então ela resolveu apostar na única coisa que era mais forte que meu desejo de conhecer o mundo: o meu medo. Minha mãe percebeu o quanto eu era supersticioso (deve ser um traço da família) e, dissimulada, sentenciou: "Marcos, fiquei sabendo que o Homem do Saco anda aparecendo na nossa rua, e que ele pega qualquer criança que estiver sozinha, coloca no saco e depois joga a criança no rio". Já com os olhos cheios de lágrimas, perguntei a ela se era verdade, e a resposta veio: "Claro, e se você for um menino malvado ele vem te pegar".

Pouco mais de vinte anos depois ainda sou bastante supersticioso e não deixei de adorar quando tenho moças lindas acariciando meus cabelos, mas o mito do Homem do Saco mudou bastante. Hoje, dizem, ele não aparece mais na minha rua, mas em Brasília. Relatos recentes de pessoas muito mais dissimuladas do que minha mãe jamais poderia ser afirmam que tal personagem circula sorrateiramente entre a Casa Civil da Presidência e a Câmara dos Deputados, desde 2002. Dizem também que o saco dele está R$ 30.000, 00 mais cheio do que era o do pobre Homem do Saco original e que o ditado também mudou: “se você for um deputado malvado, o Homem do Saco vem te pagar”.

Espero sinceramente que esta história toda seja apenas mais uma lenda urbana, assim como era na minha infância...

Por Marcos Donizetti