Não existe panacéia
Mas o tempo passa e os heróis normalmente são desmascarados. São simplesmente homens, com toda a beleza e toda a tragédia que isso envolve. Ademir é vereador na capital paulista pelo PC do B. Na semana passada os jornais noticiaram que o porteiro de gabinete de Ademir recebeu salário maior que o dele no mês de maio, e o salário de um vereador na capital paulista é de R$ 7.155,00. Ainda mais grave: outros três funcionários do gabinete foram agraciados com esta sorte. Interessante perceber também que são funcionários dele o filho, a esposa, dois cunhados e a sobrinha. Não é contra a lei, mas é um atentado à moralidade. Perdi um dos meus heróis, e doeu mais do que saber de todas as denúncias contra o governo que ajudei a eleger. O vereador vai exonerar os parentes, mas é tarde demais. Não lembro mais dos passes dele em campo, mas da falha ética e moral.
Apenas seria fácil demais culpar o Ademir. Também é fácil demais dizer “não confio em políticos, são todos corruptos”. Os Jeffersons e Dirceus sempre existirão, mas ao ficarmos todos apenas “indignados” com a existência deles estamos convenientemente olhando para a ponta do Iceberg, sem encarar a questão em seu âmago. A corrupção política é apenas uma chaga existente na pele da nossa sociedade, um sintoma de algo que na verdade está podre em nossas entranhas. A cura passa não só pela repressão e indignação contra eles, mas deve estender-se a todos nós.
Sou filiado a um partido político e lembro-me bem da primeira reação de muitos amigos e parentes ao saberem desta minha atitude: “Que bom. Agora você poderá nos arrumar um desses empregos onde não faremos nada e ganharemos muito bem”. Meus parentes e amigos são desonestos? Não vou entrar no mérito, mas refletem exatamente o que pensa uma enorme parcela das pessoas, principalmente em um país onde vale a lei do “preciso pensar em mim e levar vantagem em tudo”. Aliás, toda a relação das pessoas com a coisa pública em uma democracia ainda incipiente como a nossa é equivocada: “O Estado existe apenas para nos servir”. Pode ser verdade, mas para que isso ocorra temos nossa parcela de responsabilidade, de participação e de cooperação com este processo. É parte de um conceito mais amplo chamado “cidadania”.
Helton, eu não me sinto traído nem sinto que minhas esperanças foram jogadas no lixo. Há muito aprendi que não existe panacéia para esta doença social que temos, nem ideologia que vá nos salvar. Veja bem, a ideologia é necessária, vital eu diria. Mas é ingenuidade (de todos nós) achar que as filosofias de esquerda, direita, norte ou sul sejam suficientes para termos um mundo melhor.
O maior obstáculo não está no sistema, mas nos homens. Está no fascínio tentador que o poder exerce (vide nosso governo e suas atitudes). O processo de mudança deste estado de coisas passa pela necessidade de olharmos todos para nossas próprias atitudes também. Uma sociedade com valores éticos mais firmes e maior respeito às instituições (que também devem fazer por merecer tal respeito) terá cidadãos melhores e, consequentemente, políticos menos corruptos e mais interessados no bem estar de todos. Nesta sociedade a corrupção não deixaria de existir, mas seria prontamente punida e combatida, e gosto de acreditar nisso. Infelizmente só não tenho a ilusão de que um governo fará tudo por nós. A cura se dará lentamente, e começa em nossos lares, com os valores que passaremos a nossos filhos e netos. Até lá, que gritemos contra cada ato leviano dos corruptos, mas sem esquecer nossa própria parcela de culpa.
Gosto de pensar como meu ídolo da música brasileira, em uma de suas canções: “se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”.
Por Marcos Donizetti










