Tema da semana: 'Sinais'

quarta-feira, junho 22, 2005

Cartilha do corrupto

Em tempos de “mensalões”, malas-pretas e pseudo-tenores é bom lembrar que no Brasil ninguém nasce corrupto: transforma-se. Não se trata, no entanto, de uma metamorfose lenta e gradativa. Ouvi dizer até que basta chegar ao poder para que a mudança aconteça. Umas mais evidentes, outras nem tanto. Tem gente que ainda se faz de tímido. Mas, não sei não. Como brasileira, quero acreditar que tudo seja intriga da oposição. Embora tenha tomado conhecimento de uma cartilha, de autoria desconhecida, preparada concomitantemente àquela politicamente correta, que proibia colocar no mesmo saco toda sorte de escória, digo, de farinha que a política nacional é capaz de produzir. A seguir, com total exclusividade, o Mimeographo publica o manual do corrupto. Livro de cabeceira de muitos políticos. Do planalto à planície.

Farinha pouca, meu pirão primeiro.
Aos iniciados, essa é a regra número um. A que, em princípio, não causa grandes dores de consciência – se que é alguém com acesso a um exemplar deste manual ainda tenha isso. Lembre-se sempre: “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Questão de sobrevivência. Em qualquer chance trate de garantir sua farinha, afinal seu pirão terá que render. Fazer parte do “esquema” exige pirão em fartura para servir bem companheiros de partidos, de outras siglas, gente do judiciário, funcionários do alto escalão, fazer agrados aos parentes da patroa e aquela “jabá” com a imprensa marrom.

Lei de Gérson.
Gérson, aquele era o cara que sabia das coisas. Num comercial de televisão, tornou oficialmente público o lema dos exímios corruptos: o importante é levar vantagem em tudo. Isso vale tanto para grandes cifras, como também para o troco do pão que o comerciante, por distração, devolveu a mais. Finja também uma distração, embolse o dinheiro e empanturre-se de pão quente. Em caso de obesidade, haverá sempre uma cirurgia de redução de estômago para dar jeito na cintura roliça dos glutões.

Pagando bem, que mal tem?
Este é o mesmo princípio das peladas da revista Playboy. Depois de fazer-se de difíceis, pudicas e recatadas para valorizar o interesse da publicação de suas fotos acabam aceitando o “convite do nu artístico, de um trabalho sensível e muito bonito” pelas cifras que consideram ideais. Esse é o exemplo a seguir. Negocie sempre. Nunca aceite a primeira proposta, nem a segunda. Na terceira, diga começar a pensar no caso. Afinal, pagando bem que mal tem?

Todo mundo tem seu preço.
Não existe ética inabalável, não há honestidade que resista a mimos e agrados. Isso vale para a polícia, para o funcionário da limpeza do seu gabinete, para grandes empresários e para políticos de carreira irretocável. Basta usar a psicologia e descobrir a que preços serão vendidos.

Rouba, mas faz.
Regra importantíssima. A lógica do eleitorado ainda é do “rouba, mas faz”. Receba propina, desvie dinheiro da educação e da saúde, mas não deixe de construir uma ponte, asfaltar uma estrada e pagar uma conta de luz atrasada. O eleitorado e seu bolso agradecem.

O jeitinho brasileiro.
É com o famoso jeitinho brasileiro que se deve achar brechas na legislação e viciar licitações – um maná do dinheiro fácil.

Vender a alma.
Todo corrupto que se preza coloca a alma à venda. Entretanto, seguindo a lei da oferta e da procura, nos dias atuais convém dar descontos, fazer promoções e parcelar em doze vezes sem juros. Sabe como é, tem muito corrupto com a alma pendurada no varal.

Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço.
É aquela velha história: pregue a honestidade e a ética, mas não precisa levá-las a sério.

O que os olhos não vêem o coração não sente.
Roube, mas roube com discrição. Seus eleitores não precisam saber de seus atos e negociações escusas. Portanto, cuidado com as câmeras escondidas, grampos telefônicos e gravadores ligados. Essa gente da imprensa, além de não tomar champanhe com qualquer um, adora um sensacionalismo para vender jornal e revista e ganhar uns pontinhos na audiência.

Quem se junta aos porcos, farelo come.
Junte-se a quem quiser se isso for trazer alguma vantagem (lembre-se da Lei de Gérson). O farelo não é tão ruim assim. E sempre haverá um vinho Romanée Conti de R$ 7 mil para acompanhar.

E por último, uma advertência:
Se gritarem “pega ladrão”, não corra: cante!

Por Jussara Soares