Tema da semana: 'Sinais'

terça-feira, maio 24, 2005

Minha Música dos Anos 80: ‘Solidão me deixe forte, talvez resolva meus problemas ...’

A música sempre foi meu refúgio e minha consolação. Meus discos foram meus grandes e melhores amigos durante toda a década de 80 e ainda hoje ocupam um espaço grande dentre as coisas que me são importantes. É exatamente em respeito a eles, que realmente estiveram comigo sempre que eu precisei, que peço desculpas aos leitores por desrespeitar o tema proposto.
Juro que tentei encontrar apenas uma canção com a qual pudesse resumir o turbilhão de emoções que me sacudiram durante toda a vida, principalmente durante os anos de espinhas enormes no rosto e de hormônios expelidos com o suor, mas não consegui. Até pensei em citar Lennon (passei a infância querendo ser como ele, exceto pelo péssimo gosto para mulheres), meu primeiro salário, aos 13 anos, foi gasto todo na compra de um disco dele que tinha a música que me ajudou a entender muito da minha falta de sintonia com as pessoas e com o mundo em minha pré-adolescência: “Watching The Wheels” (1980). Eu realmente sonhava naquela época poder dizer ao John que eu sabia exatamente o que ele queria dizer ali, e que ele cantava e falava aquilo para mim. E que me fazia chorar por saber.
Pensei também em falar dos Pixies. De quando vi pela primeira vez o álbum DooLittle nas mãos de um amigo e de como aquilo mudou minha vida. Se Lennon me mostrou com sua música que outras pessoas podiam também ser desajustadas e não saberem ao certo qual o lugar delas no mundo, Black Francis e Kim Deal me mostraram que tudo bem ser assim. Que talvez a culpa não fosse minha, mas do mundo que não me entendia. E que se ele não me entendia mesmo, tudo bem então se eu gritasse o que eu sentia, exatamente como eles faziam em músicas como “Debaser”. Mas desisti também... Entre estes dois momentos, estes dois discos, muita coisa aconteceu. Não era justo citar apenas o início e o fim (ou o novo começo) da história e eu continuava com o problema de não saber sintetizar tudo em uma música.
Foi aí que olhei para a prateleira de cd’s que está aqui na minha frente e tudo ficou claro. Impossível mesmo eu escrever sobre uma música daquele período, mas sobre uma banda sim: o Ira! Este grupo da Vila Mariana é responsável por boa parte da trilha sonora das minhas dores e alegrias da juventude. “Mudança de Comportamento” (a música que tem um verso dando nome a este post) era só o que eu tinha naqueles momentos de solidão corrosiva. Eram tardes inteiras entre meus livros, repetindo este verso quase que como um mantra: “solidão me deixe forte, talvez resolva meus problemas”.
“Tolices” me ajudava a lidar com a indiferença dos meus primeiros amores, da minha menininha ruiva (assim como o grande amor do Charlie Brown. Ruivas são um fetiche que trago da infância), e com o platonismo das minhas primeiras paixões: “É tolice eu sei, você não sente os meus passos, mas eu imagino”. Eu vivia também sonhando e imaginando encontros e beijos, mas elas nem falavam comigo porque andávamos na mesma rua.
Mais tarde vieram os “Dias de Luta”: também levei tempo demais para entender que nada sei, para entender que cantar uma canção no presente não me dá a menor noção do que cantarei no futuro, e que mesmo que existam dias de paz, minha vida é feita de dias de luta em sua maioria, onde tenho sempre que passar por cima de tudo para não abaixar a cabeça e desistir.
“Nas Ruas” foi minha trilha para as fugas, para aqueles dias nos quais eu queria estar sozinho com meu “capote” e só, caminhando longas horas "entre pessoas não tão bem vestidas", sob garoa fina, no centro de São Paulo ou na Avenida Paulista, pensando em desaparecer...
Mas um dia, após a garoa fria do inverno, vieram os dias ensolarados trazidos nos olhos, no sorriso, na pele, no abraço, nos cabelos e na voz de uma menina que me fez ver flores, que me fez entender que tudo o que posso é "viver o presente, para lembrar tudo depois..."

Por Marcos Donizetti