Tema da semana: 'Sinais'

sábado, maio 21, 2005

Autobiografia aos 90 anos: ‘Só tive uma certeza nessa vida...’

Há cinco anos atrás, publicamos uma entrevista exclusiva com a escritora Tatiana Campelo. A cronista, romancista e ex-blogueira passou seus últimos anos afastada do público e da atenção da mídia enfurnada em sua casa no alto de Gonçalves, pacata cidade do sul de Minas Gerais. Republicamos trechos dessa entrevista com a escritora que revelou em sua autobiografia publicada há 5 anos atrás, utilizar uma segunda identidade como espiã-internacional há cerca de 50 anos atrás. Tatiana morreu na última sexta-feira, aos 95 anos, de insuficiência cardíaca.

Do Arquivo
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Tatiana Campelo odeia dar entrevistas. Confessa ter aversão pela formalidade, pela monotonia e a repetição. A melhor maneira de entrevistá-la foi enfrentar quilômetros de estrada para chegar em sua casa, a 1.200 metros de altitude no sul de Minas Gerais. Até bem pouco tempo atrás, nem sinal de celular havia na pequena cidade. Lá, refugia-se a escritora, que faz fama após revelar sua segunda identidade como espiã internacional em sua autobiografia que será lançada em todo o país por uma grande editora. Acomodada no casebre simples desde 2045, a agente secreta que percorreu desertos, castelos, palácios e sedes governamentais diz que preferiu fugir da “insanidade do homem ultra-moderno que enlouquecer com a humanidade”.
Acompanhada da filha mais velha, a jornalista Maria Mariana Fraga, parceira da Mimeographo Comunicações, empresa que começou como um blog de sete colunistas e se transformou numa gigante das publicações impressas, Tatiana evitou falar sobre as missões secretas da rede de espionagem internacional desmantelada pelo governo. Às vésperas de completar 90 anos, a escritora ainda mostra sinais de vigor intelectual e a fertilidade de idéias. Ligeiramente desconfiada, mas felizmente bem-humorada, Tatiana conversou com nossa repórter.

Pergunta – Devemos esperar por surpresas no novo livro?
Tatiana – Acho que fui alguém um tanto discreta em toda minha vida. Ter uma segunda identidade fez de mim uma pessoa reservada, apesar da minha natureza inquieta, impaciente. O que se pode esperar de mim agora, caquética, aos 90 anos? (risos). Pensando melhor, nunca deveria ter desejado chegar aos 90. Felizmente, não me tornei uma hipocondríaca mal-humorada e rabugenta, só umas dores aqui e ali. Ok... um pouquinho rabugenta... Ainda sim revelo a vida de uma mulher que tentou ser honesta e justa, com uma pitada de jeitinhos para quebrar a monotonia, mas que também falhou muitas vezes ao longo dos anos. Sempre me incomodou ser menos do que isso. Acho que fui muito sentimental e passional. Não acreditava mais na razão, depois que vivi um grande amor. Tudo é emoção e isso te leva a fazer coisas que nunca imagina.

Pergunta – O que mais a senhora realizou com este ímpeto?
Tatiana – Exorcizei meus medos, escrevi meus demônios, enfrentei as dores por causa do amor. Aprendi a valorizar os sentimentos e a colocar o sentimento no seu devido lugar: em todos os lugares! Se você vai fazer alguma coisa, faça direito. Helton (marido e pai de seus 2 filhos, Maria Mariana e Raul) me ensinou a soltar as amarras, me libertar e viver plenamente. Até mesmo espionando, quando realmente aprendi a me desprender do medo. Alías, entrei nessa por causa de meu marido, que acreditava nas mais loucas teorias da conspiração. Me contava aquelas histórias recheadas do que ele jurava ser verdade: discos voadores, desaparecimentos e crimes contra a humanidade de autoria de governos inescrupulosos. Na verdade, acabei vivendo o que vinha treinando desde minha infância, quando brincava de detetive no quintal. Na vida real, saltei de pára-quedas, andei por trilhas em mata fechada, pilotei aviões. Nessas horas a trilha sonora de minhas missões impossíveis tocava em minha cabeça! E não posso me esquecer que anos atrás também realizei um grande sonho: competi num fora-de-estrada com meu irmão caçula, co-piloto do 4x4 que ele mesmo desenhou. Foi incrível! Mas os anos de euforia se foram e hoje apenas as boas lembranças ficaram.

Pergunta – Nesses quase 90 anos, a senhora se arrepende de alguma coisa?
Tatiana – Talvez não tenha tido o ímpeto dos jovens da minha época. Me arrependo de não ter enfrentado algumas situações, de não ter dado aquela bofetada nos oportunistas, nos falsos, nos grandes mentirosos. Deveria ter sorrido mais, ter tomado mais banhos de chuva, ter visto mais pores de sol, escrito mais livros, lido outros tantos que nem cheguei a pôr os olhos, aprendido mais a filosofia oriental, apesar de saber as artes marciais. Mas fiz o que pude durante minha maioridade. Amei, fui emotiva, sensível, muitas vezes irracional, outras mais controlada, as vezes até demais, ainda tive tempo de ter filhos nessa loucura toda!

Pergunta – O que foi mais prazeroso ao longo de sua vida?
Tatiana – Sem dúvida os anos que passei ao lado de Helton. Com ele, tudo era feito na base do amor. Fui amada e por isso sou feliz. Tenho boas lembranças desse tempo. Comparo-as à intensidade dos momentos da infância, quando as brincadeiras simples, como correr em volta da mangueira do quintal, inventar amigos imaginários e ser uma moleca sem me preocupar com os outros, as suas opiniões e julgamentos, isso sim, era verdadeira felicidade. Viver esse amor também. A força que um amor dá é inigualável. Sentia-me invencível. Ele não está mais entre nós, mas se preciso for, eu rastrearei seus passos até onde ele está, no melhor estilo 007! Venho fazendo isso há muitas vidas!

Pergunta – O que é mais importante para a senhora hoje?
Tatiana – Há um trecho no livro que traduz esse sentimento de satisfação e o que ele significa para mim desde sempre. Acredito nas coisas simples dessa vida que o homem teima em complicar desde os primórdios. Dos 30 aos 50, levei uma vida conturbada, me meti em ciladas, mas procurei valorizar o que meus pais me ensinaram: a importância da simplicidade dos pensamentos e da grandeza dos atos. Encontrei num jornalista tão apaixonado, quanto intenso nas ações, a continuação dessa lição de vida e o momento mais importante de minha vida. O trecho diz assim:
“Sentada na cadeira de balanço, observo o vaivém do mar, o sopro divino balançando ondas de diferentes tamanhos e intensidades. Lá embaixo, a última pincelada divina me encanta e me fascina desde criança: o oceano que desperta sensações e sentimentos muito além da razão. O cheiro da maresia se mistura com o aroma dos livros antigos na estante da sala de estar. Percorro minhas mãos envelhecidas e frágeis pelas prateleiras e sinto roçar as páginas em meus dedos anciãos. E a única certeza que sempre tive nesta vida bem vivida, sei bem desde aquela noite em 2003 e o beijo na velha rede cambaleante da varanda (....)”.

Por Tatiana Campelo