Tema da semana: 'Sinais'

quarta-feira, maio 18, 2005

Autobiografia aos 90 anos: 'Múltiplos de nove'

Casa de Repouso para Idosos, 18 de maio de 2071.

Nunca fui boa com números. O mundo sempre esteve dominado por eles. E eu, inversamente, pelas letras. Porém, dona Maricota, lá nos primeiros anos da escola, insistia que eu decorasse a tal tabuada. Tudo em vão. Apenas agora aos 90 anos, quando já entrei naquela fase de fazer hora-extra na terra, quando estou quase deixando de ser gente, é que consegui encontrar algum sentido na tabuada. Pelo menos nos múltiplos de nove.

9 x 10 =
O bom de envelhecer é que se perde os pudores. Os temores e os horrores. Com o passar dos anos, tudo se torna óbvio demais, menos importante. Afinal, passa-se da condição de desafiado pela vida à desafiante dela. Então, evitar melindres, pra quê? Aos 90 anos, mais do que nunca, fala-se o que quer. Não existe barreira entre o que se pensa e o que se faz. E a isso dão o nome de caduquice. Só porque chamei um político de corrupto e o agredi com minha bengala, fui internada numa casa de repouso. Leia-se: asilo para velhos esclerosados.

9 x 9 =
Aos 81 anos, quase morri. Mas, eu sou tinhosa. Era a vesícula. Preocupada, fiz meu testamento. Quero que minha casa em Itatiaia vire uma biblioteca e meus livros, claro, parte do acervo. Meu pit bull, o Thor XI, eu deixo para meu neto. Dinheiro, não deixo porque sempre gastei tudo até o último centavo. Os discos dos Beatles, a camisa do Che Guevara, a bandeira do Vasco da Gama, as crônicas do Rubem Braga e a coleção dos livros autografados do Zuenir Ventura enterrem comigo. São meus, só meus. Na lápide, se quiserem podem escrever: Aqui jaz uma pessoa egoísta.

9 x 8 =
Tem gente que tem crise da meia-idade. Eu tive a crise dos 72 anos. Recusava-me a usar o passe-livre e ter a preferência nas filas. Numa tentativa exasperada de recuperar a juventude perdida, me matriculei na faculdade de arqueologia. E voltei a pagar meia.

9 x 7 =   
Nessa época eu era uma respeitada editora para assuntos aleatórios numa revista desconhecida. E era uma mulher segura. Aos 63, tinha seguro de carro, casa, saúde, vida e até de namorado. É que ele tinha 35 anos...

9 x 6 =
Ao romper meio século de vida, tomei decisões importantes na minha vida. Aos 54, fiz análise, aprendi a dirigir, matei uma lagartixa e li um livro de auto-ajuda.

9 x 5 =
Mais uma vez era preciso mudar. Fui para o Congo trabalhar na ONU e adotei três crianças. Aos 45 anos, era uma jovem senhora que tinha acabado de entrar na menopausa.

9 x 4 =
Por mais que minha alma continuasse inquieta, era preciso parar um pouco. Foi então que fui mais feliz. Aos 36, depois que voltei de uma temporada em Cuba, tive uma filha. Quis fazer uma homenagem. Tinha uma avó que se chamava Maria. Outra que se chamava Mariana. Fiquei em dúvida e minha filha nasceu Maria Mariana.

9x 3 =
Eu tinha 27 anos e ainda restava uma rebeldia e irresponsabilidade adolescente. Foi quando, mais uma vez, joguei tudo para alto. Era a última chance. Li um poema de Rimbaud, peguei uma mochila e saí pelo mundo. Em alguns lugares trabalhei como jornalista, em outros como lavadora de pratos. Foi assim que tive dinheiro para ir a Tóquio ver o Vasco ser campeão mundial de clubes contra o Real Madri. O gol do título foi feito pelo Edmundo, que recuperou a forma e encerrou a carreira no nosso clube do coração.

9x 2 =
Aos 18, eu era uma combinação de rebeldia e romantismo. Talvez eu ainda seja. Já estava na faculdade de jornalismo e tudo que eu queria era mudar o mundo e escrever. Foi quando comecei minhas próprias revoluções.

9 x 1 =
Bom é ser criança e ter a vida inteira pela frente. Se ainda houvesse tempo, eu teria subido mais alto no pé de jabuticaba e ficado mais tempo lá em cima. Era pendurada numa árvore no fundo do quintal que eu tentava traçar e adivinhar o futuro. Muita coisa foi diferente. Eu nunca fui boa estrategista.

9 x 0 =
Essa história começa num dia de chuva. Minha mãe tinha uma sombrinha, meu pai tinha um carro. Duas caronas. De sombrinha até o carro. De carro até em casa. Namoro, casamento e os métodos contraceptivos são muito falhos. Nove meses depois, minha vida começava do zero.

Por Jussara Soares